Crítica (com spoilers) – Carnival Row

Um mundo fantástico, onde criaturas humanas e mitológicas convivem lado a lado, com diversos elementos extraídos do folclore e das lendas. Este contexto já foi utilizado em diversas séries, filmes e livros, desde Artemis Fow até Penny Dreadful, passando pelos filmes do Hellboy O labirinto do Fauno de Guillermo Del Toro – este último, inclusive era para ser um dos produtores da série, e chegou a co-escrever o roteiro do episódio piloto – porém, ele teve que sair do projeto devido a outras produções. Recentemente, tivemos até um filme com o Will Smith, Bright, que trazia uma temática semelhante, mas que trazia toda a questão do convívio com seres fantásticos, magia e preconceito para os dias atuais. Quando anunciada, então, Carnival Row, a mais nova produção do streaming da Amazon Prime trazia uma série de promessas, ao mesmo tempo em que também levantava dúvidas. Afinal, neste ano de 2019 tivemos produções muito boas como a 2ª temporada de American Gods, Good Omens e a recente The Boys, e a série carregava, ao mesmo tempo, a responsabilidade de trazer algo novo em meio a um tema já bastante explorado e também manter o nível aclamado das séries do serviço de streaming, que cresce cada vez mais no mercado como um expoente, com produções que rivalizam com vários outros, como HBO e Netflix.

Pois bem,a princípio, Carnival Row entrega muito bem o que promete. Logo no início do episódio, ele já nos leva para a guerra entre o Pacto (humanos que não toleram os critchs – as criaturas mágicas) e os seres folclóricos perseguidos, dentre eles fadas, faunos, e centauros. Então somos apresentados à Vignette Stonemoss  (Cara Delevingne)  , uma pixie (fada) que luta arduamente para libertar seu povo da opressão. Ao chegar ao Burgo (humanos que simpatizam com os seres mágicos, mas entretanto nutrem um grande preconceito por eles), conhecemos o inspetor Rycroft Philostrate (Orlando Bloom, ótimo), ou apenas Philo, para os amigos, membro das forças policiais do Burgo e antiga paixão de Vignette. Como dito, o conceito da série não é novo – porém, a rica produção e a forma como o mundo nos é apresentado, cheio de detalhes e particularidades incríveis, é fascinante e captura de imediato a atenção do espectador. É praticamente genial a forma como conceitos como magia, feitiçaria, licantropia, entre outros elementos fantásticos são inseridos na trama, elaborando um casamento único entre o irreal e o mundano.

A partir daí, somos apresentados a 3 plots principais: a chegada da intrépida Vignette a um mundo que com certeza não se encaixa com ela – onde as criaturas que outrora governavam o mundo agora estão rebaixadas a posições servis e à uma vida miserável; as investigações do inspetor Philo sobre um assassino serial a la Jack, o estripador, que lembram muito o seriado The Alienist, as intrigas políticas entre o Chanceler Absalom Breakspear (Jared Harris), simpático a população critch, e seu rival, Ritter Longerbane (Ronan Vibert), que promove a segregação. Aliás, este é um tema muito bem explorado, em todas as suas nuances, com elementos que dialogam diretamente com o preconceito racial e de gênero que vemos até os dias atuais, com momentos que remetem ao apartheid sul-africano e ao nazismo. O melhor episódio, Kingdoms of the Moon, volta ao passado para contar como tudo começou, mostrando os cenários das guerra entre o Pacto e o Burgo em Tirnanoc, o último refúgio das fadas e local de seus tesouros seculares. Ali, também somos apresentados ao romance entre os Stonemoss e Philo, que flui muito natural e rende momentos belíssimos, incluindo algumas cenas para maiores de 18 anos que merecem aplausos pela genialidade com que são conduzidas.

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Outro momento lindamente conduzido do roteiro é o romance entre Agreus (David Gyasi ), um fauno que choca a aristocracia por subverter as regras ao ser o primeiro critch nobre com um serviçal humano, e Imogen Spurnrose (Tamzin Merchant), uma dama da alta sociedade presa a um mundo de futilidades e que vai descobrindo, aos poucos, que seu recém-chegado vizinho não é de fato tão asqueroso quanto seus preconceitos imaginavam, numa clara referência ao conto A Bela e a Fera. Aliás, referências não faltam aqui, indo desde H.P Lovecraft (é impossível não lembrar de Cthulhu ao ver a aparência do monstro Darkasher) até Game of Thrones – no entanto, se por um lado elas são bem-vindas, por outro a série acaba soando como uma grande colcha de retalhos. Apesar de todos os plots se interligarem e se resolverem muito bem, a impressão que fica ao concluir a série é que faltou um pouco mais de esmero ao se conduzir o fio principal da trama e equilibrar momentos introspectivos e cenas ação (por isso, alguns episódios soam muito arrastados) até o clímax decisivo.  Apesar dos pesares, porém, a série mantém o alto nível das produções do serviço de streaming e já tem sua segunda temporada confirmadíssima – ao que tudo indica, muito diferente da primeira, já que a trama do Darkasher e o segredo de Philo acabou de forma sucinta.

Concluindo, Carnival Row é uma viagem única e transcendental por um universo fantástico e original – em tempos onde adaptações e séries derivadas são hegemonia no mercado, é muito louvável trazer um enredo que saltou direto das páginas do roteiro para as telas. Com boas interpretações, cenários e figurino extremamente bem trabalhados e um belo trabalho de fotografia – bem como o uso de CGI – a série, apesar de suas falhas, é certeza de uma experiência que vale a pena ser conferida, seja pela genialidade da proposta ou pela ambientação empolgante. Resta agora saber se a segunda temporada é capaz de expandir os fios narrativos que ficaram soltos e conduzir a narrativa de modo fluido e que prenda a atenção do expectador. É esperar pra ver.

Nota: 7/10

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